Passagem em Permanência por Carolina Soares


Em dezembro de 2003, surge em São Paulo o Ateliê 397, um espaço expositivo que – diferente da proposta hermética do cubo branco- oferece a artistas um corredor, um lugar
de passagem, estreito, a céu aberto, chão acimentado e um muro que não traz qualquer vestígio de brancura asséptica.

O termo ateliê propõe um lugar de experimentações onde artistas convidados desenvolvam trabalhos que interajam com as condições intrínsecas do espaço. Antes de ser uma premissa discursiva, é uma questão posta pelas próprias características singulares do espaço físico do lugar. Torna-se, assim, impensável transformar um lugar de passagem- como um corredor- em um espaço expositivo que se assemelhe a um cubo branco. O contexto transforma-se em parte indissociável dos trabalhos e vice-versa. Nessa relação prevalece a efemeridade das experiências.

Essa forma de existência da arte provoca, então, mudanças que buscam romper com a percepção mitificada do objeto de pura contemplação. A garantia de uma relação específica entre o trabalho de arte e seu lugar não está na sua permanência física, mas, sim, no reconhecimento da impossibilidade de fixar sua efemeridade, e assim entender a experiência como uma situação única.

Em alguns casos, o que permanece são registros em fotografias e/ou em vídeo, que não podem ser percebidos como sendo os trabalhos, mas como parte deles. Nessa complexa dialética, o interesse volta-se pra o caráter indicial desses registros que- quando expostos- assumem o papel metalingüístico de um lugar em outro lugar. Não significa transportar para o espaço do centro Banco do Nordeste, em Fortaleza, a experiência de um site- specific realizado no ateliê 397, em São Paulo. Na via dupla estabelecida entre os espaços institucionais e os espaços alternativos, pretende-se transportar um lugar que permanece nas fotografias e vídeos.