Sonhos à deriva
Artistas plásticos misturam cultura de massa e sexualidade

Por Ferdinando Martins
27/2/2004

"Sonho Meu" e "Derivas", duas curtas exposições que se encerram neste fim de semana, mesclam artes plásticas, cultura de massa e sexualidade.

"Sonho Meu", no Ateliê 397, surpreende com caricaturas de dois ícones pop-trash-gay: Gal Costa e Maria Bethânia.

Na entrada da galeria, o artista canadense James Prior aparece no vídeo caracterizado como "James d'Hammer", mistura de cafajeste com apresentador de televisão. O nome remete a Jeffrey Dhammer, o serial killer que matava e literalmente comia homossexuais nos Estados Unidos.

No caso, quem é simbolicamente devorado é James. Hélio Melo e Clark Ferguson aparecem vestidos de Gal e Bethânia, cantando "Sonho meu".
A interpretação é caricata e, no final, James é levado para as duas
" cantoras".

Helio Melo já é conhecido do publico brasileiro pela sua participação em mostras como 'Artecidade 3' e 'Identidade Não-identidade' apresentada no MAM de São Paulo e no Centro Cultural Light no Rio de Janeiro. A mostra é completada com fotografias e plotagens, à venda na galeria por preços camaradas. A exposição acontece simultaneamente em São
Paulo e no Rio de Janeiro, no Espaço Bananeira.

A propósito, o Ateliê 397 é um dos espaços mais promissores para a arte contemporânea em São Paulo. Foi inaugurado no começo de dezembro de 2003 para abrigar exposições de caráter experimental tanto de artistas em início de carreira quanto de nomes já consagrados no circuito das artes, como Rubens Mano e Raquel Garbelotti. As exposições acontecem a céu aberto, dentro da vila que comporta os ateliês de Sílvia Jábali, Rafael Campos Rocha e Bruna Costa.

Na Galeria Vermelho, a exposição Derivas sonda o espaço urbano da cidade de São Paulo, depois do grupo de artistas participantes ter empreendido leituras de Walter Benjamin, Paul Virilio, Marc Auge e Ítalo Calvino.

Roberta Dabdab, por exemplo, filtra anúncios publicitários em duas colagens. Rafael Assef (foto) intervém em seu próprio corpo, fazendo cortes que traçam linhas que representam seu deslocamento na cidade em fases diferentes da sua vida.

Cris Bierrenbach revê as noivas que aparecem em revistas ou nas vitrines da rua São Caetano (foto), em imagens que recebem o visitante. No interior da galeria, uma outra plotagem da artista traz um ser quase andrógino, uma mulher nua com uma sutil marca de biquíni. A artista explora a superexposição do corpo da mulher na cidade e nos meios de comunicação. Ao trazer a estética do outdoor para o interior de uma galeria, desloca o foco de atenção da sexualidade crua para a forma de dominação implícita na comunicação de massa.

A proposta mais interessante, no entanto, é de Fabiano Marques, que criou o Programa de Restrição Alternada da Exibição de Obras. O artista intervém no público e na curadoria, escondendo diariamente algumas das obras expostas. O visitante nunca sabe quais obras poderão estar vedadas no dia da sua visita. Para o artista, este procedimento preserva as imagens de uma superexposição.

Na verdade, instala-se um jogo erótico de mostrar e esconder. A concepção da exposição é do jornalista e fotógrafo Eder Chiodetto e da arquiteta Marta Bogéa.

"Sonho Meu" e "Derivas" lançam olhares sensuais e evidenciam como o corpo, a cidade e a cultura de massa se cruzam, formando um novo corpo ressignificado após a saturação provocada pelo excesso de signos que se deslocam velozmente nas metrópoles.